Câmara faz análise própria sobre citação do prefeito em planilhas da Operação Lava-Jato

Câmara faz análise própria sobre citação do prefeito em planilhas da Operação Lava-Jato
A sessão ordinária de ontem da Câmara de Vereadores fez jus à expectativa da população ao concentrar debates sobre o principal tema que movimenta o cenário político da cidade nos últimos dias, responsável também por promover uma nova conexão entre Macaé e Brasília através dos desdobramentos da Operação Lava-Jato: a citação do nome do prefeito na planilha da Odebrecht, assim como de outros gestores públicos da região, a qual indica supostas doações e repasses de dinheiro voltados à campanha eleitoral de 2012.

Assumindo posições políticas conhecidas, os vereadores que se dividem entre o bloco de oposição e a bancada de governo surpreenderam, não pelos discursos de ataque e defesa à administração municipal já esperados, mas sim com argumentos que adicionaram novos 'temperos' ao cenário de crise política que se torna iminente, ao adicionar a divulgação da lista da Odebrecht apreendida pela Polícia Federal na etapa 'Acarajé' da Operação Lava-Jato, ao atual momento de definições partidárias com vistas ao processo eleitoral deste ano.

Devidamente posicionados, os vereadores da bancada de governo repetiram a estratégia de defesa ao prefeito, apresentada aos parlamentares da situação, assim como aos demais membros da alta cúpula da administração municipal, na reunião emergencial realizada na última segunda-feira (28) no Centro de Convenções Jornalista Roberto Marinho, sobre a divulgação da planilha da Odebrecht.

Já os vereadores do bloco de oposição, e também os que adotaram a linha de independência política na Casa, mostraram-se preparados para uma guerra, visto tamanho arsenal de indagações e contra-argumentos prévios de defesa ao governo, que poderão ser utilizados na possível abertura de uma CPI (Comissão Parlamentar de Investigação) para dar a oportunidade ao Legislativo de realizar a sua própria investigação.

Atônita e reativa, uma assistência composta por cerca de 200 pessoas presenciou o debate, representando outros centenas de macaenses que tentaram acompanhar a sessão de ontem pela internet, no dia em que as falhas constantes do sistema de transmissão gerou um embate com risco de rompimento de contratos para manter a defesa da lisura e da transparência da Mesa Diretora da Casa do Povo. 
Oposição propõe CPI e amplia denúncia sobre doações
"O prefeito deveria orientar a sua bancada a votar na CPI para que possa se explicar a esta Casa"
Ao inaugurar a sequência de discursos políticos que abordaram a citação do nome do prefeito na planilha da Odebrecht apreendida pela Polícia Federal, o líder do bloco de oposição na Câmara, Igor Sardinha (PRB), propôs que o próprio governo lidere uma movimentação política na Casa em defesa da abertura de Comissão Parlamentar de Investigação (CPI) que possa dar ao prefeito chances de se explicar à Casa.

"A oposição se refuta em assumir a posição condenatória diante dos fatos que ainda estão sendo investigados. Nós não vamos nos portar como o próprio prefeito faz com quem se posiciona de forma contrária ao seu poder. Portanto, eu conclamo o próprio prefeito a orientar sua bancada para que aprove a instalação de uma CPI e que lhe dê chances de se explicar à Casa aqui em plenário. Não me oponho que a Comissão seja majoritariamente composta por membros do governo, pois eu tenho os meus argumentos e defesas que irão tornar este trabalho um divisor de águas na política macaense", defendeu Igor Sardinha.

Durante a sessão, Igor adicionou comentários relevantes às análises das planilhas que vazaram no último dia 23, em primeira mão, pelo portal de notícias UOL.

"Os valores e datas de doações que constam na prestação de contas do PV Nacional não condizem com as informações registradas nas planilhas. As explicações são vagas. Além disso, há várias citações do nome do prefeito nesses documentos. E esse 'detalhes' sequer foram objetos de comentários alusivos ao governo nas defesas referentes à listagem da Odebrecht Ambiental", disse Igor. 
"Um 'braço' de Alberto Yousseff consta como doador da campanha à prefeito nas eleições de 2012"
Ao endossar o posicionamento assumido pelo bloco de oposição ao cobrar explicações ao governo sobre a citação do prefeito nas planilhas da Odebrecht apreendidas pela Polícia Federal, o vereador Chico Machado (PDT) surpreendeu ao apresentar dados referentes à prestação de contas da campanha das eleições de 2012 que soaram como uma nova denúncia associada à Operação Lava-Jato.

"Pelo que consta na prestação de contas do prefeito, nas eleições de 2012, disponível no site do TSE, há doações de R$ 195 mil em nome de uma pessoa que é apontada como 'braço-direito' de Alberto Yousseff, o principal nome da corrupção investigada pela Operação Lava-Jato neste país", disse Chico.

Ao citar nome de empresa investigada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal com atuação em Macaé, Chico Machado afirmou que encaminhará à justiça cópia do dossiê montado por ele através de análises feitas após a divulgação das planilhas da Odebrecht.

"Nós já sabíamos do vazamento dessas planilhas antes do fim da sessão passada da Câmara. Mas optamos por não fazer nenhum juízo de valor com antecedência. Não somos como o prefeito hoje citado na Operação que desvenda o maior esquema de corrupção desse país. Mas fui atrás e investiguei. E descobri que há muita coisa por de trás de uma planilha que o governo tenta desqualificar. Um dos principais doadores da campanha do prefeito está envolvido nesse esquema, e isso precisa ser investigado. O prefeito tem sim que se explicar, a nós, a esta Casa e à justiça. Quero ver como esse homem que tenta prejudicar quem se opõe a ele, vai encarar os desdobramentos da justiça", disse Chico.
Situação repete defesa traçada em reunião do governo
"Odebrecht fez doação ao PV Nacional que repassou parcela pequena a campanha do prefeito"
O 'mantra' que vem sendo propagado pelo governo como argumento contrário às análises prévias relativas à planilha da Odebrecht apreendida pela Polícia Federal foi repetido ontem pelo líder da bancada de governo na Câmara, Julinho do Aeroporto (PMDB), nas discussões sobre a citação do nome do prefeito em documentos registrados pela Operação Lava-Jato.

Devidamente embasado com ponderações previamente definidas pelo governo, em reunião realizada na última segunda-feira (28), Julinho repetiu por diversas vezes que as contas da campanha do prefeito, nas eleições de 2012, foram aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que as doações citadas na planilha da Odebrecht chegaram ao então candidato Dr. Aluízio através de repasses do diretório nacional do seu partido na época.

"Todos nós que fizemos campanha nas eleições passadas tivemos 'cotas de abastecimento'. E de onde vem esse dinheiro? Uma boa pergunta! Tudo o que aconteceu nas doações de campanha foi legal. Mas aos olhos da sociedade há imoralidade.

Certamente houve interesse da Odebrecht, que possui participação grande em Macaé, de doar para o PV Nacional recursos de campanha. O partido enviou uma pequena parcela para a campanha de Dr. Aluízio, recursos que ajudaram também todos os candidatos da coligação. Tudo o que aconteceu foi de forma legal, dentro do que previa a legislação na época. Nas eleições deste ano, empresas não poderão doar para os candidatos. Mas antes podia. Hoje, o que ocorre nesta Casa é um embate político, e nós da bancada vamos defender o governo", garantiu Julinho.
"Nessa lista pode haver equívocos. Portanto, neste momento é preciso fazer uma pausa nos discursos"
No púlpito distante da 'cadeira da presidência', Dr. Eduardo Cardoso (PPS) encerrou os debates sobre a planilha da Odebrecht e os discursos políticos da sessão ordinária de ontem, fazendo uma defesa política/pessoal à figura particular do prefeito.

"Em Macaé essa questão da Lava-Jato eu prefiro analisar de forma pessoal. Eu não acredito que Dr. Aluízio seja um patrimonialista, que ele esteja na política para acumular bens. Vejo ele republicano, médico de excelência e católico fervoroso. É nisso que eu acredito", disse.

O presidente da Câmara apontou, em seu discurso, a realização da reunião emergencial conduzida pelo prefeito com os vereadores da bancada e o secretariado, promovida na última segunda-feira.
E, segundo Dr. Eduardo, hoje é preciso fazer uma pausa nos discursos políticos acalorados para analisar com cautela as informações da Lava-Jato.

"Tenho visto o noticiário da Lava-Jato. Há coisas que eu vi pertinente e outras impertinentes e também exageros. Nesse momento, eu acredito que há uma necessidade de se fazer uma pausa dos discursos políticos e deixar as investigações acontecerem. Até porque naquela listagem da Odebrecht pode haver equívocos ou irregularidades. E não dá para fazer julgamentos prévios", apontou.

As declarações de Dr. Eduardo ajudaram a apaziguar o clima tenso entre a bancada de governo, da qual faz parte, e do bloco de oposição, que respeita. Mas vai ser difícil frear a transferência dessa análise para o jogo eleitoral que inaugurou os trabalhos do próprio legislativo no retorno do recesso parlamentar, no mês passado.
Questionamentos de vereadores ficaram sem respostas
Outros vereadores que participaram do momento político da sessão ordinária de ontem da Câmara também contribuíram com o julgamento prévio promovido pelo Legislativo em relação às planilhas da Odebrecht, posicionamentos que cobraram do governo maiores explicações sobre os fatos apurados pela Operação Lava-Jato.

"Eu tive o cuidado de imprimir e analisar todas as planilhas que vazaram no site do UOL. E constatei que o nome do prefeito é citado oito vezes na listagem. Isso é doação para campanha do PV Nacional? Muito estranho e muito ruim para Macaé", disse Maxwell Vaz (SD), membro do bloco de oposição.

Já Amaro Luiz (PRB), também da oposição, relacionou a planilha com a presença da Odebrecht na cidade.

"Um contrato milionário existe e precisamos investigar se não estamos diante de uma jogatina com o dinheiro público", disse Amaro.

Vice-líder do governo, Luciano Diniz (PMDB) considerou a divulgação da planilha como um 'lado ruim do jogo de vale-tudo pré-eleitoral'.

Líder da bancada do PMDB na Câmara, Paulo Antunes apontou que o governo não se 'escondeu' ao dar esclarecimentos sobre a planilha.

"Hoje, a Odebrecht realiza a maior obra de saneamento da história de Macaé através de um contrato assinado no governo passado. E tudo que está sendo citado foi aprovado pelo TSE na prestação de contas", disse.

 

Autor: Márcio Siqueira marcio@odebateon.com.br

Foto: Arquivo



Mais notícias

- Frente Parlamentar abraça pauta da indústria offshore
- Oposição critica inércia do governo diante de pautas de interesse da indústria
- Câmara reage contra as declarações do prefeito
- Conselho fala sobre denúncia de desvio de verba na merenda escolar.
- Emendas Impositivas voltam à pauta de discussões na Câmara de Macaé